Dudu mais que você
Será que esse bronzeador artificial está muito na cara?" - perguntava-se Carlos Eduardo (ou Dudu, para os íntimos do Lago Sul) enquanto se olhava nervosamente no espelho do banheiro de sua casa duplex com duas piscinas, sauna e uma bela grama verde.
Era o grande dia da banca de heteroidentificação do concurso público para Analista de Intersecção Burocrática e Harmonização de Incongruências Documentais, e Dudu tinha investido pesado: R$850 em consultoria especializada com a coach racial Margareth ("com th, por favor"), três sessões de bronzeamento artificial e até comprou umas roupas mais "humildes" no shopping, seguindo as dicas do vídeo "Como passar na banca - tutorial infalível" do Dr. Júnior Consultor de Cotas no YouTube.
"Filho, você tem certeza disso?" - perguntava sua mãe, Dona Constância, ajeitando o cabelo platinado enquanto tomava seu café importado. "Seu bisavô por parte de pai era português da Madeira, isso não conta? Filho meu nenhum é preto.”
Na sala de espera da banca, Dudu encontrou outros candidatos. Sentou-se ao lado de Júlia, que trabalhava como caixa de um atacadista há 5 anos e estava tentando uma vaga, pois teve apoio de um coletivo educacional.
"Primeira vez?" - perguntou Júlia, observando o tom meio alaranjado de Dudu.
"É... sim..." - respondeu ele, ajeitando nervosamente a camisa comprada especialmente para parecer "mais quebrada”.
Do outro lado da sala, Michele Mondele, influencer de "coaching racial", gravava discretamente stories para seu curso online de R$1.999,90: "Hoje vamos acompanhar ao vivo o resultado de nossas técnicas infalíveis! Eu vou te ensinar a contar sua história. Arrasta pra cima pra garantir sua vaga!"
O momento chegou. Dudu entrou na sala da banca, onde três avaliadores o aguardavam com expressões sérias.
"Por favor, se identifique e nos diga: você já sofreu preconceito racial?" - perguntou a avaliadora do centro. Eu pessoalmente, acho essa pergunta é muito engraçada, vamos avaliar seu rosto através das suas cicatrizes.
Dudu engoliu seco. Começou a recitar o texto que havia decorado: "Sim, uma vez não me deixaram entrar pela porta da frente do prédio onde eu ia visitar meu amigo Lucas..."
"O Lucas do condomínio Península?" - interrompeu outro avaliador, arqueando a sobrancelha.
O bronzeador artificial começou a escorrer com o suor frio. Na sala de espera, Jurema checava no celular as parcelas que ainda faltavam pagar da pós-graduação online que havia feito para ter um ponto a mais neste concurso de analista de intersecção Burocrática e Harmonização de Incongruências Documentais.
Enquanto isso, Michele continuava gravando: "Gente, não esqueçam de se inscrever no meu curso! Método aprovado por mais de 3 pessoas!"
Todo dia sai de casa um malandro e um otário - às vezes, os dois na mesma pessoa. Naquela tarde, o universo conspirou pelo bem.
Júlia passou na banca sem precisar de tutorial. Afinal, como ela mesma pensou em dizer ao sair da sala para Michele que parecia um abutre na porta: "Minha história está na cara - literalmente."
Michele, que nunca ouviu isso, continuou vendendo seus cursos, e dizem que agora está oferecendo um módulo especial: "Como lidar com o fracasso na banca - apenas R$2.499,90, parcelado em 24x sem juros!"
Quanto a Dudu? Voltou para casa de motorista de aplicativo, postando sua indignação em aplicativos diversos, todos na sua conta privada e anônima, o @edwardmaiSSquevc. Sua mãe, Dona Constância, pediu e serviu-lhe um café importado de consolo, enquanto comentava: "Filho, às vezes ser você mesmo é o melhor conceito que existe.” Adjunto ao conselho, algumas ofensas contra grupos específicos da sociedade foram proferidas. Mas ela é velha, né.
O mais engraçado de tudo é que o pai do Dudu, o já falecido candango Valdemir, era negro.
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