A Morte de Alice
atei ela. Não chamem a polícia - Alice nunca foi real. Era apenas uma ilusão da mente de um velho homem gay com estabilidade financeira e carência que vivia do outro lado do país. Ele era desses que acreditam que podem adquirir tudo o que querem pela internet. Até pessoas…
A história começou como um desses enredos contemporâneos de "patrocínio afetivo online". A velha dança do "você finge ser quem eu desejo, e eu finjo que não estou pagando por isso". O problema é que meu benfeitor, em sua ânsia de controle, decidiu que eu seria sua Alice particular - sim, a do País das Maravilhas, mas numa versão distorcida.
“No máximo, uma Shaniqua”, comentou uma amiga confidente sobre minha situação. “Você é negro. Alice é nome de branca, de branca sonsa.” Apostamos juntos que era o nome da ex-mulher dele enquanto comíamos bolo de pote pago pela Alice — essa amiga amava tudo de chocolate.
A cada notificação no celular, ecoava: "Alice, Alice, Alice!" Como se repetir o nome três vezes pudesse me transformar em uma personagem feminina e encantada. Mas, ao contrário, essa toca de coelho não é a minha. Afinal, ser forçado a ser afeminado não é exatamente meu fetiche.
Os "rolês" bancados eram um doce veneno, admito. Alice pagou café da manhã, almoço, lanche da tarde e da madrugada e talvez um carro de aplicativo para a casa de um garoto que estava me comendo. Mas nem todo o ouro do mundo valia o preço de ouvir "Alice, minha Alice”.
Hoje, num momento de lucidez, decidi pôr fim a essa farsa. Eu matei Alice por mensagem. “Cansei dessa merda”, declarei, devolvendo o dinheiro como se devolvesse um convite para uma festa do P Diddy, onde a sanidade é a primeira a ser sacrificada.
Surpreendentemente, ao desvanecer a fantasia, deparei-me com um ser humano do outro lado da tela. Ele se mostrou compreensivo - quem diria! Chamou-me de "cara bom" — no masculino pela primeira vez, provando que, às vezes, é preciso matar uma personagem fictícia para que as almas reais possam ser vistas.
No fim das contas, não sou um prostituto virtual - sou apenas um pervertido com princípios. E Alice? Bem, Alice provavelmente ganhou outro corpo disposto as fantasias de seu criador. Queria que ela tivesse ficado na cova…
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