Horror Homossexual Brasileiro
O objetivo deste livro é elevar obras de terror nacionais que abordam a homossexualidade, focando especialmente nos viados — homens gays cisgênero e nas bichas. Busco entender o que essas narrativas revelam sobre nós, e definir as capacidades do que é o horror homossexual brasileiro.
Também irei refletir sobre as violências e traumas enfrentados pelos viados, expondo o horror cotidiano e os mecanismos que utilizamos para lidar com essas experiências. Por fim, procuro compreender como transformamos essas vivências em formas de assombro e resistência ao Brasil homofóbico. Portanto, o "horror" aqui pode ser visto como as narrativas "de horror", "de terror", "macabras", "cruéis" e "violentas" presentes na literatura, cinema e arte do medo.
A "política do medo", que perpetua incertezas e favorece posições conservadoras, também ignora o potencial transformador do pavor, conforme teorizado por Kierkegaard (1979). Este argumenta que o pavor pode ser uma força radical, reconhecendo a ameaça como parte integrante da vida do sujeito, em vez de apenas um elemento externo que perturba a ordem social.
O Horror é Brasileiro
O Trauma é Brasileiro!
Como aponta a artista, psicóloga e macumbeira Castiel Vitorino Brasileiro (2019), uma das dimensões fundamentais do trauma colonial é o apagamento imposto às histórias das populações não brancas deste território. Isso impossibilita a possibilidade de dissidências de sexo e gênero fora daquilo que é colonial e binário.
Este manifesto se apresenta, então, como uma enunciação de liberdade. O segredo se torna uma estratégia de resistência, um curandeirismo para aliviar os males coloniais que acometem os corpos dissidentes. Pois, como diz Castiel, "nenhuma origem se descobre, toda origem se cria" - é preciso investigar para que a fuga e a liberdade aconteçam.
Toda forma é um gesto. Desaprender os gestos coloniais é um movimento cotidiano, pois "lembrar daquilo que se esqueceu é um movimento cotidiano pois o trauma racial é cotidiano". Precisamos de mais desejos de metamorfose e não de esquecimento (suicídios). A Autopreservação (BAIRRO, 2019).
Como causamos imenso desconforto àqueles que esperavam encontrar a imagem que estabeleceram como aceitável, o "sujeito normal", lembramos do lema do conto de Conceição Evaristo "A gente combinamos de não morrer".
A ficção se apresenta como arma de guerra, como possibilidade de imaginar a ruptura deste mundo tal como o conhecemos, a partir de uma perspectiva anticolonial. Jota Mombaça reflete sobre os regimes necropolíticos brasileiros. Afinal, "não podemos construir o que não podemos imaginar primeiro". E este manifesto meta-tecnicamente se propõe a: Desnaturalizar os procedimentos acadêmicos, problematizar a relação sujeito-objeto, descolonizar o pensamento queer, incluir vozes marginalizadas e reformular as práticas acadêmicas (MOMBAÇA, 2016; MOMBAÇA, 2021).
O horror é sempre sobre a diferença, o estranhamento, o nojo, o imprevisível e portanto perigoso e mortal. Para pessoas LGBTQIA+, tem sido um espelho com texto e subtexto ou um lugar aonde podem observar, aprender ou desaprender sobre a rejeição, estar alerta, sobreviver. Para o resto, ambos o gênero do horror quanto a cor das pessoas são a margem. O que mora ou deveria sempre morar nas sombras.
A inspiração política para pensar o formato manifesto veio do Manifesto Gay de Carl Wittman, de 1970, escrito em Los Angeles, no auge da rebelião dissidente. Não procuraria por um molde de região americana, se não fosse pelo desgaste de sua importância esquecida, capacidade de horrorizar e a auto-consciência de Carl que mantém claro "que essas são as opiniões de uma pessoa e são determinadas não apenas pela minha homossexualidade, mas pelo meu ser branco, masculino, classe média. É a minha consciência individual. Nossa consciência de grupo evoluirá à medida que nos reunimos - estamos apenas no início".
Violências contra Homossexuais
Reiterando Wittman: Fugimos de pequenas cidades, onde nossos empregos e esperanças de uma vida digna estavam em risco. Fomos forçados a escapar de ameaças de policiais, de famílias que nos rejeitaram ou apenas "toleraram". Fomos expulsos das forças armadas, das escolas, demitidos de empregos, espancados por punks e policiais.
Nos tornamos gays refugiados em grandes cidades, formando guetos de autoproteção, mas sem a liberdade que desejamos. O território é nosso, mas a opressão persiste.
Policiais heterossexuais nos patrulham, legisladores heterossexuais nos governam, empregadores heterossexuais nos mantêm na linha, e o sistema financeiro nos explora. Fingimos que tudo está bem, pois não conseguimos ver como mudar essa realidade – temos medo.
Estamos cheios de amor uns pelos outros e expressamos isso. Também estamos repletos de raiva pelo que nos foi feito. Ao lembrarmos da autocensura e repressão que enfrentamos por tantos anos, um reservatório de lágrimas se derrama. E estamos eufóricos, vibrantes, com o florescimento inicial de um movimento.
Queremos deixar claro: nosso primeiro trabalho é nos libertar. Isso significa limpar nossas mentes do lixo que foi imposto a nós. Este manifesto é uma tentativa de levantar questões e apresentar ideias que substituam as antigas. É um ponto de partida para a discussão, principalmente entre nós. Se pessoas heterossexuais de bem acharem útil para entender o que é a libertação, tanto melhor.
Seres humanos historicamente criaram tabus em torno da homossexualidade. Quando crianças, nos recusamos a capitular às exigências de ignorar nossos sentimentos uns pelos outros.
Precisamos perceber que amar uns aos outros é algo bom, não uma infelicidade. Temos muito a ensinar sobre sexo, amor, força e resistência.
A homossexualidade não é um capricho. Não surge da ausência do sexo oposto, não é um ódio ou rejeição a ele, não é genético, nem o resultado de lares despedaçados, exceto na medida em que expõe a farsa do casamento tradicional. A homossexualidade é a capacidade de amar alguém do mesmo sexo.
A heterossexualidade exclusiva é problemática. Reflete o medo do outro, é anti-homossexual e está repleta de frustração.
É hora de nos libertarmos e abraçarmos quem somos, sem medo e sem vergonha.
As experiências de violência nas trajetórias de jovens viados — predominantemente cisgêneros — se entrelaçam em certos lugares, como a casa, a rua, o quarto, instituições e no próprio espelho. Essa violência se acentua principalmente na adolescência e juventude, durante o processo de auto-declaração e ontologia do ser.
Essa violência tem raiz no desvio em relação às normas afetivo-sexuais e de gênero masculinas impostas. Pode se manifestar através de violência sexual, física, psicológica e institucional.
A violência sexual, que pode ocorrer na infância e adolescência, é frequentemente silenciada por um "muro de silêncio" masculino. Até na idade adulta, muitos homens vítimas de estupro e assédio têm dificuldade de assimilar o trauma e denunciá-lo.
No espaço íntimo dos relacionamentos, os viados também são vítimas de abusos por parceiros, incluindo agressões psicológicas, simbólicas e discriminação relacionada a raça e corpo.
Nas ruas, além dos relatos de crimes, há os perigos dos aplicativos de pegação, onde o violentador pode ser tanto um estranho quanto o próprio ficante. Neste espaço, ocorrem violências como o "stealth breeding", onde o parceiro remove a camisinha sem consentimento.
O resultado para o viado é a constante expectativa de rejeição em todos os lugares. Há uma hipervigilância e ansiedade baseada no temor pela própria segurança, tanto física quanto social. Os mecanismos de sobrevivência dos viados são diversos e muitas vezes envolvem a omissão da própria capacidade de questionar a norma.
Ou seja, somos todos final boys ou final bichas, de alguma forma todos devíamos pensar mais sobre o terror como cotidiano, como trauma, como auto-poder e consciência de si mesmos.
Em outro dimensão deveríamos refletir sobre marcos coletivos da violência contra homossexuais no território brasileiro. Estipulo essa série de horrores:
Assassinato Inquisitório de Tybira: Um indígena tupinambá executado por sodomia em 1614, no Maranhão (NYN, 2020).
Perseguição Inquisitória à Xica Manicongo: A repressão as jimbandas no século XIX (JESUS, 2019).
Ditadura Militar (1964-1985): Perseguição de minorias, incluindo a comunidade LGBTQIA+ (MALU, 2014).
Operação Tarantula (1970): Ação policial contra travesti, pessoas trans e homossexuais ou todos grupos "desviantes" durante a ditadura (MALU, 2014).
O Brasil é o Horror
Então você mora num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, certo?
"O Som ao Redor" de Kleber Mendonça Filho (2013) pode ser visto como uma obra introdutória para pensar as representações do horror brasileiro, mesmo que não se encaixe facilmente em categorias definidas de horror. Assim como grande parte da produção cultural brasileira, o filme retrata a norma - os heterossexuais e cisgêneros que compõem o tecido social tradicional do país.
O filme tece uma narrativa que entrelaça diferentes camadas da sociedade pernambucana, expondo as micro-relações de poder que permeiam a sociedade brasileira. Através de personagens como Bia e Mariah, o filme revela os fantasmas do período colonial que ainda assombram o presente urbano.
Ambientado em Recife, o cenário não é qualquer Recife, mas uma cidade vista de dentro e de fora simultaneamente, onde a burguesia habita a zona norte, território dos antigos engenhos. Essa geografia social carrega os fantasmas das Ligas Camponesas e do pré-golpe de 1964, manifestando-se através de uma paranoia constante.
Embora não centralize as populações marginalizadas, o filme brinca com elementos do terror, especialmente através de personagens como Sofia e João. O engenho, mesmo em sua ausência física, permanece como uma força fantasmagórica que assombra o mundo urbano pós-Lula.
Numa releitura contemporânea de "Casa Grande & Senzala", o filme expõe um Brasil enlouquecedor, onde os pequenos gestos de revolta culminam na explosiva morte do coronel do engenho, simbolizando como os fantasmas dos excluídos têm apenas dois caminhos: retomar ou vingar.
Assim, "O Som ao Redor" demonstra com precisão como o Brasil continua sendo um território assombrado por suas próprias contradições e heranças coloniais, mesmo quando essas assombrações não são protagonizadas pelas populações homossexuais.colonial (QUADRO EM BRANCO, 2022).
Brasis e seus Bichos
Sobre o Brasis, No que se refere ao folclore brasileiro, é necessário abordar a forma como este tem sido historicamente infantilizado ou reduzido a suas capacidades de provocar temor ou interesse. Muitas vezes, essa percepção é alimentada por superstições associadas a pessoas idosas e de baixa renda. Contudo, o folclore, que aqui será entendido como um imaginário coletivo brasileiro sincrético, resulta da confluência das cosmogonias indígenas, europeias e africanas, e merece uma análise que ressalte os limites e as ressignificações, especialmente no que diz respeito à representação indígena. Assim, não me aprofundarei em manifestações folclóricas que reconheço como expressões de religiosidade indígena, como Jurupari, o Boto Cor-de-Rosa, Boitatá e Mapinguari.
Neste contexto, buscarei explorar os elementos do folclore que dialogam com a dissidência atualmente identificada como homossexualidade masculina, a qual, curiosamente, é pouco abordada nas lendas que envolvem monstros, visagens ou aspectos da urbanidade.
Nos perigos da noite, nas diversas regiões interiores, encontramos muito mais figuras de mulheres animalizadas, bruxas ou condenadas, além de matizes quase santificados, como Maria Papuda e João Maria, e, por fim, figuras masculinas que simbolizam punição, exemplo e moralidade: os "bichos".
Essas entidades monstruosas parecem refletir os medos e as punições direcionadas a comportamentos considerados desviantes. O Encourado, por exemplo, encarna o medo e a punição, frequentemente associado àqueles que não frequentam a igreja. A Cabra Cabriola, um ser que se alimenta de pessoas vulneráveis durante a noite, dialoga com a demonização do deus sumério Moloch. Outro exemplo é o Bicho da Fortaleza, um monstro que assume diversas formas, desde um cachorro preto gigante até um homem misterioso envolto em uma capa escura, devorando anormalmente crianças e animais. Aqui, observamos a projeção do medo e da punição sobre o "diferente".
Destaca-se também a figura transformista do Capelobo, um monstro da região Norte que se alimenta de cães, gatos e caçadores, com a crença de que alguns indígenas possuem a capacidade de se transformar nessa criatura. Novamente, a alteridade é apresentada como algo a ser temido e eliminado. Por fim, temos o Corpo-Seco, Unhudo ou Raquítico Galopante, um cadáver ressequido expulso da terra como punição por um pecado grave contra a própria mãe, e o Romãozinho, uma criança condenada a vagar eternamente por ter nascido "mau", sem possibilidade de redenção.
Neste trabalho, não se busca revelar um subtexto forçado de homossexualidade, mas sim construir conexões entre esse imaginário popular rural e nossas vivências queer. Esses "bichos" funcionam como figuras de alteridade, representando exemplos constantes do que não se deve tornar.
Essas entidades também servem como vilões da alteridade, exemplificando o que se deve evitar. O Corpo-Seco, Unhudo ou Raquítico Galopante, presente tanto no folclore brasileiro quanto no ibérico, é descrito como um cadáver ressequido expulso da terra em decorrência de um pecado excepcionalmente grave contra a própria mãe. Essa narrativa pode ser interpretada sob a ótica da não compreensão das ordens geracionais, embora frequentemente se relacione a aspectos de psicopatia macabra.
Por último, o Romãozinho, cuja história é similar à do Corpo-Seco, é condenado a uma eterna infância por ter causado a morte de sua mãe, sendo descrito como alguém que nasceu "mau". Ao contrário do Corpo-Seco, as lendas que o cercam sempre enfatizam que o menino é intrinsecamente desordenado, sem possibilidade de se conformar à ordem comum. Todos esses personagens estão condenados a vagar pela vida, sem se submeter à ordem estabelecida.
Assim, o objetivo não é revelar um subtexto homossexual escondido, mas sim construir uma ponte entre esse imaginário popular rural e nossas experiências contemporâneas.
Sendo assim amostro esta série de bichos do bestiário brasileiro:
Romãozinho: presente em Pernambuco, com relatos que datam do século XX.
Corpo-Seco, Unhudo ou Raquítico Galopante: presente no Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, com relatos que remontam ao século XIX.
Capelobo: localizado na Amazônia, especialmente no estado do Amazonas, com relatos antigos que têm raízes em tradições indígenas regionais.
Cabra Cabriola: típico do Nordeste do Brasil, com relatos populares desde o século XX.
Encourado: originário da Bahia, com relatos que datam do século XIX.
O Cinema de Horror Brasileiro
Para Carlos Primati (2022), o audiovisual de horror no Brasil possui características distintas em comparação aos Estados Unidos. Enquanto o terror norte-americano é voltado para o público jovem, o cinema de horror brasileiro se aproxima mais da abordagem europeia, com uma perspectiva mais densa e madura, voltada para uma plateia adulta.
O terror brasileiro começou a se manifestar nas telas nas décadas de 1930 e 1940, com as chanchadas (comédias de fantasma) e os melodramas góticos produzidos em São Paulo. Posteriormente, os filmes de selva, com influência de Wall Liton, e o undergrondi (underground brasileiro) também se destacaram no gênero.
A figura icônica de Zé do Caixão, surgida em 1964, foi fundamental para a construção do terror nacional, desafiando as regras do gênero. O cinema marginal, desenvolvido na Boca do Lixo em São Paulo, também trouxe uma visão acentuada do entretenimento, com destaque para o erotismo.
Nos últimos anos, o terror brasileiro tem apresentado uma abordagem mais psicológica e social, com destaque para o "horror no interior", explorado por cineastas como Guto Parente e Renata Pinheiro.
O horror em produções nacionais pode ser dividido em duas vertentes: o "horror militante", com cineastas que defendem as características tradicionais do gênero, e o "horror social", marcado pela mescla de gêneros cinematográficos e pela contextualização histórica e crítica social.
Independentemente da vertente, o horror no cinema brasileiro está intrinsecamente ligado a questões históricas e memórias que assombram o corpo social, manifestando-se na estrutura urbana e no cotidiano dos indivíduos.
Viadagem no Cinema de Horror Brasileiro
Zé do Caixão deveria ser nosso Babadook
A personagem blasfêmica do Zé do Caixão, o coveiro maléfico da trilogia de filmes de José Mojica Marins, traz um instigante em sua perfomance transformista e quase drag. Embora em nenhum momento seus filmes apresentem um subtexto gay, o personagem encarna uma masculinidade machista intersticial. Com sua aparência que destoa de tudo ao seu redor, sua personalidade blasfêmica e sua busca pela "mulher perfeita" para lhe dar um filho, representa uma construção de masculinidade muito particular no contexto cishetero latino-americano. Sua performatividade do machismo parece mais um comportamento aprendido que lembra à um incel.
A performance do Zé do Caixão fora de seus filmes pode sim ter sido um avanço para a aceitação de tendencias góticas e perfomances Drags dentro do Brasil. Mas, apesar das críticas destrutivas ao cristianismo e à moral vigente, Mojica acaba por reafirmar, no final, os valores dominantes que o personagem parecia negar. Essa ambiguidade faz com que Zé do Caixão seja visto, no imaginário popular, mais como uma figura ligada ao satanismo e a contra cultura, mas que é consumido e relativamente aceito justamente por não se opor.
Assim, Zé do Caixão se apresenta como uma figura complexa, que habita um espaço de ambiguidade entre a subversão e a reafirmação dos valores dominantes. Sua performance queer, ainda que não intencional, acaba por revelar as contradições e tensões presentes na construção da masculinidade no horror brasileiro. A personagem do Zé do Caixão não se difere em matriz dos outros bichos antes analisados (SOARES, 2009).
Precisamos aviada-lo? Oque conseguimos quando pensamos num bicho. Um desvio que por ventura se presta a parecer ou agir masculino. Mas um masculino do Uncanny Valley, o quão isso pode desconcertar a norma?
Literatura de Horror
O gotico desamor homossexual brasileiro
O gótico no Brasil tem suas raízes em um grande homossexual: Álvares de Azevedo, considerado o santo padroeiro da literatura de horror nacional. Ele é o principal representante do movimento gótico e do ultrarromantismo no Brasil. Sua obra "Noite na taverna", publicada em 1855, inaugura e encerra essa tradição.
A obra é composta por sete contos que se passam em uma taverna, onde um grupo de amigos se reúne para contar histórias. Cada conto revela o passado obscuro de um dos personagens, abordando temas como necrofilia, canibalismo, estupro e suicídio, mostrando como os seres humanos podem ser repulsivos e afundados em suas próprias sombras. Masculinidade é um tema do texto e subtexto.
Álvares de Azevedo morreu, aos 21 anos, em abril de 1852, devido à tuberculose. Ele deixou uma carta de despedida para seu amante, Luís, expressando seu amor e a dor de um amor não correspondido. Essa carta um verdadeiro marco no horror homossexual brasileiro.
Fragmentos da carta de despedida ao seu amante:
"Luís, há aí não sei quê no meu coração que me diz que talvez tudo esteja findo entre nós [...] há em algumas de minhas cartas a ti uma história inteira de dois anos, uma lenda, dolorosa sim mas verdadeira, como uma autópsia de sofrimento. Luís, é uma sina minha que eu amasse muito e que ninguém me amasse. Assim como eu te amo, ama-me”.
Na literatura contemporânea, encontramos poucas obras como "Manual gay para sobreviver a uma história de terror” (2020), de Rafa Tex, e a antologia "Pesadelos Prismáticos” (2019), que reúne autores LGBTQIA+. No "Manual", Tex narra a experiência traumática de um homem gay em uma festa clandestina durante a pandemia, onde um assassino usa máscara cirúrgica e face shield. O protagonista acredita que sua identidade pode ajudá-lo a sobreviver.
Já em "Pesadelos Prismáticos", as histórias focam em jovens universitários LGBTQIA+. No primeiro conto, "A Mão do Macaco", Caio e seus amigos encontram um amuleto que realiza desejos, mas a um custo aterrador. A obra promete uma imersão em terrores que revelam que a aceitação pode ser o único caminho seguro em meio ao horror.
Eles continuam uma tendências do horror homossexual brasileiro de aponta a norma, horrorizar ela e desviar ao mesmo tempo que repensa a si mesmo em sua própria violência.
Contos Eróticos e Relações Vampirescas
Não posdemos deixar de considerar os elementos de horror presentes nas pornochanchadas contemporâneas. Em "Nosferaku: Conto Erótico Gay", por exemplo, um jovem é visitado por um vampiro que luta contra o desejo de transformá-lo, temendo perder a essência da vida que ele ainda possui. Esse aspecto revela um ponto cinza do horror homossexual brasileiro, onde os contos eróticos mais populares na internet podem ser lidos como contos de horror, normalizando violências com o erotismo.
Não é exatamente o caso da comédia Nosferaku, mas é a situação do erotismo brasileiro, onde as narrativas de prazer são, na verdade, relatos de dor, solidão e trauma.
Outro exemplo clássico da violência homossexual é o romance "Bom-Crioulo" (1895), de Adolfo Caminha. Aqui, a homossexualidade é um tema que aterroriza o narrador, revelando mistérios que ele não consegue desvendar. O gótico surge quando as certezas científicas do narrador desaparecem, expressando um terror que abala a estrutura do romance. Como identificou Eve Kosofsky Sedgwick, há uma tradição na literatura inglesa de abordar o "pânico homossexual". No Brasil, no entanto, não há um pânico, mas sim uma ansiedade com o homossexual.
Em "Bom-Crioulo", o vampiro não é um monstro mitológico; sua negritude e homossexualidade são as origens mitológicas de sua monstruosidade sedutora. Embora o autor busque a denúncia, para este manifesto, reitero que ele ainda reafirma a norma (MENDES, 2004).
Isso abre espaço para um outro debate: a metacrítica desses romances nos faz pensar na coparticipação dos viados e bichas nesse esquema de normalização, ou na criação de esquemas ainda mais violentos sob a estética da subversão. O horror que devemos criar ou continuar a criar é diferente da violência ou autoviolência. Exemplos não saudáveis incluem casos como o de Marcelo de Andrade, o "Vampiro de Niterói", que agia contra meninos.
Portanto, em contraposição à norma, à homofobia internalizada, à autoviolência ou à violência a terceiros, o horror homossexual brasileiro é uma forma consciente de enfrentar a heteronormatividade e suas consequências, por meio da estética, do estilo, da narrativa, do posicionamento e da prática política, com a intenção de emancipação geral. Trata-se de coexistir, mas também de existir além da dor.
O Manifesto, por fim.
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MENDES, L. As ruínas da homossexualidade: O gótico emBom-Crioulo,de Adolfo Caminha. Luso-Brazilian Review, v. 41, n. 1, p. 56–70, jun. 2004.
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VITORINO, Castiel B. A linguagem dos anjos.
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